[News] “Não existe Chico sem Matilde” pauta edição especial do Margem da Palavra
“Não existe Chico sem Matilde” pauta edição especial do
Margem da Palavra
Cidinha
Programa promovido pelo Centro Dragão do Mar e Bece reúne, no dia 22 de abril, Cidinha da Silva e Bárbara Carine para debater o protagonismo das mulheres em lutas antirracistas nos 27 anos do CDMAC
O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e a Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece), equipamentos da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult), geridos em parceria com o Instituto Dragão do Mar (IDM), realizam a terceira edição do programa Margem da Palavra, ação integrada que propõe encontros mensais em torno da literatura e da oralitude, unindo ditos e escritos como estratégia de ampliação das possibilidades de leitura de mundo. Nesta edição especial, que acontece no dia 22 de abril, às 19h, no Minianfiteatro do CDMAC, com entrada gratuita, o programa se integra à semana de celebração dos 27 anos do Dragão do Mar, assumindo como eixo de pensamento o tema “Não existe Chico sem Matilde”.
Neste mês, em consonância com a temática de aniversário do CDMAC, o encontro entre literatura, memória e história evoca a figura de Matilde Maria da Conceição, mulher negra e mãe de Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, para dar início ao debate crítico sobre o protagonismo das mulheres em lutas antirracistas e por direitos historicamente negados. Ao trazer as mulheres negras para o centro da narrativa, o Margem da Palavra convida o público a pensar com as “Matildes” que estão por toda a parte, legando seus exemplos e sua matripotência para a reconstrução de uma contra-história ou meta-história do Brasil.
Em abril, o programa recebe duas importantes vozes do pensamento contemporâneo brasileiro. A escritora, pensadora e ensaísta Cidinha da Silva, autora de 24 livros que atravessam gêneros como crônica, conto, dramaturgia e ensaio, traz em sua trajetória obras reconhecidas nacionalmente, como “Um Exu em Nova York”, premiado pela Biblioteca Nacional em 2019; “O mar de Manu”, laureado pela APCA em 2022; e “Vamos falar de relações raciais?”, finalista do Prêmio Jabuti em 2025. Sua escrita investiga as relações raciais, a memória e a experiência negra no Brasil, articulando literatura e pensamento crítico.
Ao seu lado, participa Bárbara Carine — mãe, mulher negra cis, baiana, professora, escritora, empresária, palestrante e influenciadora conhecida como @uma_intelectual_diferentona. Graduada em Química e Filosofia pela UFBA, é mestra e doutora em Ensino de Química pela UFBA/UEFS e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Idealizadora da Escola Maria Felipa, primeira escola afro-brasileira do país, Bárbara é autora do best-seller Como ser um educador antirracista, vencedor do Prêmio Jabuti 2024 na categoria Educação. Sua atuação articula produção acadêmica, escrita e comunicação digital, ampliando o debate sobre raça, educação e transformação social.
“Ao reunir essas duas trajetórias, o Margem da Palavra propõe um encontro potente entre literatura, educação e pensamento crítico, ampliando a escuta sobre as narrativas que constroem o Brasil. Em diálogo com o tema do aniversário do Centro Dragão do Mar, o programa destaca a importância de reconhecer as Matildes que sustentam histórias, territórios e futuros possíveis, fortalecendo a cultura como espaço de memória, resistência e reinvenção”, explica Camila Rodrigues, superintendente do CDMAC.
Para Suzete Nunes, superintendente da Bece, a edição reforça o papel das bibliotecas públicas na promoção de debates urgentes e na valorização de narrativas historicamente invisibilizadas. “A Margem da Palavra reafirma o compromisso da Bece com a democratização do acesso à leitura e com a construção de espaços de escuta e reflexão crítica. Ao colocar em evidência figuras como Matilde, o programa amplia repertórios e contribui para que mais pessoas se reconheçam nas histórias que ajudaram a construir o Ceará e o Brasil”.
Além disso, antes e após o encontro, haverá apresentação da DJ Lolost, cofundadora do coletivo Numalaje e da Festa Crioula. Seu trabalho é marcado pela mistura de forró de favela, funk e aparelhagem paraense, criando uma sonoridade própria e conectada com as vivências da juventude preta e LGBTQIAP+ de Fortaleza.
Não existe Chico sem Matilde
Matilde Maria da Conceição, mãe de Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, desapareceu dos arquivos históricos e é devolvida à memória coletiva ao se tornar protagonista e ícone da temática de aniversário de 27 anos do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Foi, supostamente, uma labirinteira da praia de Canoa Quebrada, em Aracati, e, sem dúvida, a responsável por tecer o caráter do filho, sua tenacidade e seu senso de justiça social. Vem dela o conjunto de valores do homem tornado símbolo da luta coletiva em prol da abolição de pessoas escravizadas no Ceará oitocentista, aquele que entrou para a história como o Dragão do Mar.
Matilde, a labirinteira cujos pedaços de história até hoje sobrevivem na memória e cultura oral das labirinteiras de Aracati. Uma delas também é homenageada no aniversário do Centro Dragão do Mar: Maria Beatriz Andrade da Cunha, a Dona Bia, mestra labirinteira de 87 anos, que conta sobre uma provável Matilde, matriarca de uma família monoparental que, acompanhando à distância a trajetória do filho Chico, àquela altura já dono de jangadas e prático-mor do porto de Fortaleza, fez coro à sua luta abolicionista, participando de quermesses junto à Igreja e às chamadas Senhoras da Caridade, a fim de arrecadar fundos para o movimento em ebulição.
Hoje, Matilde também é a representação emblemática da inumerável legião de mulheres afro-brasileiras que se equilibram entre a afirmação e a negação da vida, denunciando, com fibra e ímpeto de resistência, o racismo estrutural e o ranço violento da desumanização na sociedade das exclusões.
“Evocar Matilde, tanto no aniversário quanto nesta edição do Margem da Palavra, é um gesto político e simbólico, reconhecendo a cultura, a memória e as lutas históricas vivenciadas por mulheres como possibilidades de imaginar futuros melhores. O que queremos afirmar é que as transformações sociais têm raízes profundas nas trajetórias de mulheres que semearam caminhos para a reconstrução de um país cujo passado histórico ainda ressoa no presente quando constatamos a existência de um patriarcado e racismo estrututurais”, explica Camila Rodrigues.
Serviço
Margem da Palavra – Especial “Não existe Chico sem Matilde” | 27 anos CDMAC
Data: 22 de abril (terça-feira)
Horário: 19h
Local: Minianfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
Entrada: Gratuita
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