[News]A nova pressão estética é parecer que você não fez nada?

 

A nova pressão estética é parecer que você não fez nada?







Depois da era das harmonizações evidentes, cresce a busca por resultados cada vez mais discretos. Dermatologista alerta que o desejo de “naturalidade” também pode se transformar em mais uma cobrança sobre a aparência feminina



Por alguns anos, rostos muito preenchidos, contornos marcados e mudanças facilmente perceptíveis dominaram parte do imaginário da estética. Agora, o movimento parece seguir na direção oposta. Muitas mulheres chegam aos consultórios dizendo que querem melhorar a aparência, parecer mais descansadas ou preservar características que gostam, mas fazem uma ressalva: ninguém pode perceber que houve uma intervenção.


Para a dermatologista Paula Sian, essa mudança merece uma reflexão que vai além das técnicas disponíveis. Se antes a pressão estava em transformar o rosto, agora ela pode estar migrando para uma exigência aparentemente mais sutil: envelhecer, mas continuar com aparência jovem; cuidar-se, mas sem demonstrar esforço; realizar procedimentos, mas sem que eles sejam percebidos. “Existe uma diferença importante entre querer se cuidar e sentir que é preciso corrigir constantemente alguma coisa. Muitas pacientes chegam dizendo que querem ficar naturais, que não querem mudar o rosto e que ninguém pode perceber o que foi feito. A questão é entender de onde vem esse desejo e até que ponto ele realmente pertence àquela mulher”, explica.


Quando a naturalidade vira um novo padrão

A valorização de resultados discretos pode representar um avanço em relação aos exageros estéticos, principalmente quando o objetivo é preservar as características individuais. O problema surge quando a ideia de naturalidade deixa de significar liberdade de escolha e passa a estabelecer um novo modelo a ser perseguido.


Segundo Paula, não é incomum encontrar mulheres bonitas e saudáveis que chegam ao consultório com uma extensa lista de pontos que gostariam de modificar. Durante a conversa, porém, algumas percebem que determinadas insatisfações começaram após o contato repetido com imagens de influenciadoras, celebridades, filtros e conteúdos sobre procedimentos.


“Hoje recebemos uma quantidade enorme de referências sobre como deveríamos envelhecer, como deveria ser o contorno do rosto, a qualidade da pele ou até a posição de determinadas estruturas. Quando todo mundo começa a perseguir as mesmas características, corremos o risco de perder justamente aquilo que torna cada rosto individual”, afirma.


Para a médica, o discurso da beleza natural também pode carregar uma contradição. A mulher pode se sentir pressionada a parecer mais jovem e descansada, mas, ao mesmo tempo, não deve demonstrar que investiu tempo, dinheiro ou procedimentos para alcançar aquele resultado.

“É quase como se existisse uma obrigação de envelhecer perfeitamente e sem esforço. Só que envelhecer é um processo natural e cada pessoa vai passar por ele de maneira diferente. Não existe um único jeito correto de chegar aos 40, 50 ou 60 anos”, ressalta.


Nem toda consulta precisa terminar em procedimento

Na avaliação da dermatologista, uma das responsabilidades do profissional está justamente em não transformar toda queixa estética em uma indicação de tratamento. Antes de propor qualquer intervenção, Paula procura compreender o que incomoda a paciente, há quanto tempo aquela percepção existe, quais são suas expectativas e quais referências estão influenciando sua decisão.


“Às vezes, a melhor conduta é fazer menos. Em outros casos, é não fazer nada naquele momento. O médico também precisa ter liberdade para dizer que determinado procedimento não é necessário ou que não vai entregar aquilo que a paciente está imaginando”, diz.


Ela defende que o planejamento estético seja construído de maneira individualizada. Para algumas mulheres, cuidar da qualidade da pele, manter proteção solar e uma rotina adequada de skincare pode ser suficiente. Para outras, tecnologias, injetáveis ou diferentes tratamentos podem fazer sentido. A indicação, porém, não deveria partir de uma lista de procedimentos considerados obrigatórios para determinada idade.


“Não existe uma receita que diga o que uma mulher precisa fazer aos 30, aos 40 ou aos 50 anos. Quando a estética começa a funcionar dessa maneira, ela deixa de atender a pessoa e passa a atender a um padrão”, pontua.


Autocuidado ou insatisfação permanente?

A dermatologista também chama atenção para a diferença entre utilizar a estética como ferramenta de autocuidado e entrar em um processo contínuo de busca por defeitos. Para ela, uma pergunta importante antes de qualquer procedimento é simples: o que exatamente a pessoa espera sentir depois daquela mudança? “É legítimo querer se sentir bonita, cuidar da pele ou melhorar alguma característica que incomoda. O alerta aparece quando o resultado nunca é suficiente. Faz um procedimento, encontra outro problema; melhora uma região, passa a rejeitar outra. Nesse cenário, talvez a questão já não esteja apenas no rosto”, explica.


Paula acredita que um bom resultado estético não deveria apagar características individuais nem criar dependência de intervenções sucessivas. “Naturalidade, para mim, não significa necessariamente não fazer procedimentos. Significa continuar se reconhecendo. A estética deveria ser uma possibilidade de cuidado, e não mais uma obrigação que a mulher precisa cumprir para se sentir adequada.”


De acordo com a dermatologista, em uma época em que até a aparência de quem “não fez nada” pode envolver uma extensa rotina de cuidados, talvez a discussão mais importante não seja qual procedimento entrega o resultado mais natural, “mas quem está determinando o que significa parecer natural, e por que tantas mulheres ainda sentem que precisam corresponder a essa expectativa”, finaliza.




Drive - releases e fotos. 

As pastas estão nomeadas com o crédito do fotógrafo: https://drive.google.com/drive/u/3/folders/13dAxWdglkiFjs1958i2TfbBDyZvgHR75 




Dra. Paula Sian (Dermatologista)

Dermatologista desde 2007, Paula Sian Lopes é formada pela Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP), onde também fez residência em Clínica Médica e Dermatologia. Especializou-se em Farmacodermia e Dermatoses Imuno Ambientais na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e em Medicina Chinesa e Acupuntura na Associação Médica Brasileira de Acupuntura (AMBA).


Desde 2011, Paula atende em seu consultório próprio com o viés em Dermatologia clínica, estética e cirúrgica, tanto para adultos como para crianças. Além disso, a especialista realizou serviços voluntários no ambulatório de alergias da UNIFESP, de 2013 a 2017.


A médica também é escritora e acaba de lançar o “Um burnout para chamar de seu”, um livro que relata, pelo ponto de vista do paciente, como é conviver com o burnout.

 

CRM: 111963-SP RQE Nº: 38348

https://www.instagram.com/pelecomalma/ 

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