[News] “Cyber PANC e Só Zé”: Mariana Brecht imagina um futuro possível para as cidades em crise climática em uma aventura que une amizade e agroecologia



Em nova obra infanto-juvenil, autora coloca a crise climática no centro da narrativa e aposta na amizade, na agroecologia e na força do coletivo para transformar eco ansiedade em imaginação ecológica.


Em uma São Paulo de futuro próximo atravessada pela emergência climática, duas crianças descobrem que talvez a amizade seja também uma forma de criar outras formas de viver. Essa é a premissa de “Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas” (selo Escarlate, Companhia das Letras, 216 págs., 2026), novo livro de Mariana Brecht (@mariana.brecht), com ilustrações de Lumina Pirilampus (@lumina.pirilampus), voltado ao público infanto-juvenil. A obra conta com apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB/2024), do Governo Federal.

Mais do que uma narrativa, o livro funciona como um convite à ação. Ao longo de suas páginas e especialmente nos cadernos de apoio que encerram o volume, os leitores encontram ferramentas para sair da contemplação passiva da crise climática e experimentar, eles mesmos, outras formas de habitar o mundo. Entre receitas, jogos, cartilhas e um glossário imersivo, o livro não quer apenas contar uma história: quer plantar sementes.

As ilustrações de Lumina Pirilampus — segunda colaboração da artista com a autora depois de "A Menina com os Pés no Chão", finalista do Prêmio Jabuti — acrescentam uma camada bem-humorada e sensível à narrativa. Seus traços traduzem em imagens a imaginação ecológica que move o livro, dando rosto e corpo aos personagens híbridos, aos cenários de uma São Paulo transformada e aos pequenos seres mais-que-humanos que habitam essa aventura.

A crise climática pelos olhos de quem vai herdar o mundo

Assim como no romance “Foi acabar bem na nossa vez” (Editora Rocco, 2025), em que investiga a crise climática a partir de conflitos afetivos e territoriais, Mariana desloca a emergência ambiental do pano de fundo para o centro da narrativa. Aqui, porém, o colapso é visto pela lente da juventude: não como abstração futura, mas como experiência cotidiana. Cada pessoa precisa plantar o que come, a organização da cidade mudou e as soluções dependem menos de grandes promessas tecnológicas e mais de manejo da terra, gestão de resíduos e tecnologias low-tech.

A narrativa acompanha Cyber PANC, menina extrovertida que cresceu em uma fazenda com educação domiciliar. Inconformada com a forma como os pais lidaram com a morte de sua tia, que vivia na cidade, ela foge de casa. Cyber carrega um dom extraordinário: fazer plantas brotarem com as mãos. Mas, depois da morte da tia, esse poder deixa de funcionar como deveria. Ao chegar à comunidade urbana de Minhoquinha, ela cruza o caminho de Só Zé, garoto tímido e ansioso que sempre viveu ali, frequenta uma escola com disciplinas como Gambiarra Avançada, Territórios Além-Bairro e preparação física para manejo agroflorestal — um currículo muito distante do modelo atual, pensado para formar pessoas capazes de cuidar da comunidade e da terra — e enfrenta o mundo sempre à procura de um motivo para se preocupar.

A aventura das protagonistas as leva a percorrer diferentes territórios em uma São Paulo de 2070. Dividida em três partes, a narrativa conduz a dupla da comunidade de Minhoquinha ao Composto das Yata'is, território de abelhas jataís e pessoas meio-gente-meio-abelha, e depois ao encontro do Povo da Laje, grupo quase ciborgue que vive no alto de um prédio com medo de descer ao chão. Pelo caminho, Cyber PANC e Só Zé cruzam ainda com os Punkáchis, uma comunidade de humanos e cães, e com o Jardim das Esfinges, onde aprendem que na natureza não existem pragas, apenas desequilíbrios. A estrutura em territórios permite à autora explorar um leque de possibilidades de reconstrução comunitária, do manejo agroecológico às tecnologias low-tech, passando por formas inusitadas de habitar e cuidar do espaço urbano.

Entre personagens híbridos de humanos com animais, manejo da terra, gestão de resíduos e soluções de baixo impacto, o livro trabalha luto, agroecologia, senso de comunidade e ansiedade climática por meio de uma narração infantil bem conduzida e marcada pelo humor. Apesar do cenário transformado pelas mudanças climáticas, a obra não é uma distopia. Mariana imagina um futuro possível em que as soluções surgem coletivamente, a partir do apoio mútuo e da reorganização das formas de viver.

Para a autora, essa perspectiva esperançada é essencial quando se escreve para crianças e jovens. Se adultos de trinta e quarenta anos já sofrem com a ameaça das emergências climáticas, quem está crescendo hoje vivencia essa tensão de maneira ainda mais latente.

A narrativa também dialoga com o conceito de solastalgia — a dor de ver o território amado se transformar diante dos olhos — traduzindo esse sentimento para uma linguagem acessível às crianças, que já percebem a instabilidade ambiental e precisam de recursos simbólicos para elaborá-la. “Por mais que seja um tema duro, é uma realidade percebida pelas crianças e jovens, que precisam de meios, recursos e maneiras de exprimi-la”, afirma a autora. Ao trazer as angústias e reações de Só Zé e Cyber PANC, Mariana busca oferecer uma moldura para que leitores comuniquem seus próprios anseios e se sintam vistos e ouvidos.

Mariana conta que o livro representa seu projeto de mundo, seu mundo utópico. A identificação com o personagem Só Zé é direta — a autora também se considera uma pessoa ansiosa e reclusa em um mundo que exige coragem e entrega. “Eu queria imaginar um futuro que tivesse lugar para pessoas como Só Zé, como eu. E o livro me permitiu abrir esta janela. ”

Escrever sobre o tema nem sempre é um processo leve, mas, neste caso, houve espaço para a alegria. “É como se eles também me puxassem pela mão e me convidar a olhar o mundo com a animação de quem ainda não tem dores nas costas e boletos a pagar. ” Para a autora, o livro foi uma forma de perceber que a alegria cabe e precisa caber mesmo quando se vislumbra um futuro árduo.

Ao longo da trama, o conceito de superpoder se amplia. Ele pode nascer nas mãos de uma menina capaz de fazer brotar plantas, mas só se sustenta na comunidade. Não há heroísmo isolado: há redes de cuidado, conflitos, assembleias e soluções coletivas. A crise climática, sugere o livro, é grande demais para ser enfrentada individualmente, mas não é grande demais para ser imaginada de outro modo.

Uma autora que escreve a crise climática em múltiplas linguagens


Nascida em São Roque, no interior de São Paulo — entre a Mata Atlântica e o Cerrado —, Mariana Brecht é escritora, roteirista, narrative designer de jogos digitais e pesquisadora. Sua produção transita entre literatura, jogos, audiovisual e música, marcada pela linguagem poética, pela experimentação formal e pela presença constante de temas como crise climática, eco ansiedade e solastalgia.

Já conhecida pelo público infanto-juvenil por “A Menina com os Pés no Chão” (Editora Florear, 2023), finalista do Prêmio Jabuti, a autora também escreve para adultos. Publicou “Brazza” (Editora Moinhos, 2020), romance de autoficção finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e “Labirinto” (Editora Jandaíra, 2021), livro-jogo de poesias, ambos contemplados pelo ProAC. Em 2025, lançou pela Editora Rocco o romance “Foi acabar bem na nossa vez”, também ambientado em um contexto de colapso climático.

A pesquisa relacionada ao processo criativo de “Foi acabar bem na nossa vez” teve papel fundamental na escrita de “Cyber PANC e Só Zé”. A maioria das referências teóricas sobre emergência climática e imaginação ecológica mobilizadas no romance para adultos foi utilizada também na construção da nova obra infanto-juvenil.

Pensadores como Donna Haraway, Vinciane Despret, Bruno Latour, Ailton Krenak, Antônio Bispo e Timothy Morton influenciam sua forma de pensar a emergência climática e alguns desses nomes aparecem no livro. Também foram referências importantes Ana Rusche e Gisele Mirabai, pesquisadoras e autoras dedicadas ao tema. No campo infanto-juvenil, toda a obra de Keka Reis, que assina a quarta capa do livro, e a série “O diário de Pilar”, de Flávia Lins e Silva, tiveram papel relevante no processo criativo.

Atuação em jogos, audiovisual e música



No campo dos jogos digitais, Mariana é referência em narrativa e roteiro. Foi co-roteirista e narrative designer de A Linha, jogo em realidade virtual vencedor de um Primetime Emmy Award e do prêmio de Melhor Experiência em Realidade Virtual no Festival de Veneza. Também trabalhou como narrative designer em jogos premiados e de grande alcance, além de projetos independentes e experimentais.

É bacharel em Audiovisual pela ECA-USP, mestre em Estudos Internacionais pela Université de Toulouse e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA-USP, onde pesquisa as relações entre estruturas narrativas e crise climática. Atua ainda como professora de roteiro para jogos, palestrante e participa de entrevistas, aulas magnas e debates sobre narrativa contemporânea, jogos e emergência ecológica.

Como compositora e intérprete, integra o projeto musical-literário-performático Intraterrestres, que reúne canções, poemas e jogos voltados à reflexão sobre o colapso ambiental. Seu trabalho dissolve fronteiras entre arte, tecnologia e pesquisa, sempre com o objetivo de imaginar outros modos de sentir, narrar e habitar um mundo em crise.

Ficha Técnica

Livro: “Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas”
Autora: Mariana Brecht
Páginas: 216
Formato: 15.70 X 22.50 cm
Peso: 0.48 kg
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 24/03/2026
ISBN: 978-65-8772-483-6
Selo: Escarlate
Editora: Companhia das Letras
Ilustração: Lumina Pirilampus

Adquira a obra no site da Companhia das Letras: https://bit.ly/4rc76AV








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