12 julho 2017

[Resenha] A Rainha de Tearling

Quando a rainha Elyssa morre, a princesa Kelsea é levada para um esconderijo, onde é criada em uma cabana isolada, longe das confusões políticas e da história infeliz de Tearling, o reino que está destinada a governar. Dezenove anos depois, os membros remanescentes da Guarda da Rainha aparecem para levar a princesa de volta ao trono – mas o que Kelsea descobre ao chegar é que a fortaleza real está cercada de inimigos e nobres corruptos que adorariam vê-la morta. Mesmo sendo a rainha de direito e estando de posse da safira Tear – uma joia de imenso poder –, Kelsea nunca se sentiu mais insegura e despreparada para governar. Em seu desespero para conseguir justiça para um povo oprimido há décadas, ela desperta a fúria da Rainha Vermelha, uma poderosa feiticeira que comanda o reino vizinho, Mortmesne. Mas Kelsea é determinada e se torna cada dia mais experiente em navegar as políticas perigosas da corte. Sua jornada para salvar o reino e se tornar a rainha que deseja ser está apenas começando. Muitos mistérios, intrigas e batalhas virão antes que seu governo se torne uma lenda... ou uma tragédia.
O que eu achei?
De vez em quando tenho certa dificuldade em encarar livros como introduções aos respectivos universos, de forma que me decepciono um tiquinho quando a autora opta por segurar a mão nas revelações. Esse, tecnicamente, foi o caso de A Rainha de Tearling, mas nem por isso impediu que fosse uma leitura bastante robusta.

Interessante é a palavra perfeita para descrever a protagonista, Kelsea. Uma das personagens mais fortes que já li — apesar de algumas escorregadas aqui e ali, que não foram por sua conta — e é enriquecedor conhecer mais sobre ela. Como degustar a vida e os contextos envolvidos de uma pessoa real marcada na história por sua contribuição. O virar de páginas torna-se compulsório em todos os momentos narrados por ela devida a responsabilidade que ela sabe que carrega e esforça-se para estar à altura do merecimento (não que precise de muito esforço dada situação em que encontra-se o Tearling).

Talvez para balancear sua determinação e torná-la mais humana — o que pra mim foi só irritante mesmo — Kelsea é tomada como um figura correspondente à famigeradíssima imagem de bonitinha, ou a feia arrumadinha, que é por onde seguem os comentário sobre ela no livro. Isso leva, em parte, à ausência de romance no livro, algo que só reparei depois de um bom tempo lendo, pois não faz falta alguma. O livro possui enfoque total no teor político de Tearling, sendo assim não sobra espaço para um interesse amoroso na vida de Kelsea, de certa forma caracterizando-o inteiro nesse meio: A Rainha de Tearling é um livro introdutório ao reino de Tearling e sua Rainha apenas, ademais é papo para outra hora. Isso se torna um ponto tanto bom quanto ruim.

O universo criado aqui por Erika Johansen é particularmente original e tem muito a ser explorado pela frente. O reino de Tearling e os demais passaram por um acontecimento chamado de A Travessia, onde toda tecnologia anterior a isso se perdeu, forçando que a civilização retornasse ao seu “início”. Ou seja, esses reinos são reminiscências do nosso mundo após uma era futurista que fracassou e assim retornou à Idade Média, possibilitando que o livro seja então categorizado tanto como uma distopia quanto fantasia. O modo como a autora aborda assuntos “passados” é muito inteligente, como quando fala da era da digitalização dos livros, os quais mostram-se irrelevantes fisicamente a ponto da destruição em massa de exemplares físicos, acarretando assim no montante quase nulo de obras pós-Travessia. Além disso, Erika destila certas críticas ácidas à igreja Católica que, nesse novo mundo, passa a ser considerada Religião com R maiúsculo, talvez a única.

No início de cada capítulo, Erika insere citações e comentários de personagens no futuro, numa época durante ou muito depois do governo vigente de Kelsea. Isso — e mais alguns elementos da história — trazem um aspecto atemporal muito interessante, principalmente as safiras que pertencem a quem dominar Tearling, nesse caso Kelsea. As joias conferem poderes ainda misteriosos de uma forma geral a quem as portarem, mas fica bem claro desde o início que a percepção de tempo se transforma para que as possuírem; sendo assim, para Kelsea, passado, presente e futuro se interligarão como um quebra-cabeças único que eu estou muito empolgado para ver sua evolução.

Contudo houve certos pontos que me impediram que amá-lo como gostaria. Narrado em terceira pessoa, o livro tem foco principal em Kelsea, escapulindo de vez em quando para mostrar outros pontos de vista, como, por exemplo: o de Javel, guarda do portão do palácio; Tyler, um padre encarregado de servir de ponte entre a “igreja” e o estado; Thomas, tio de Kelsea e regente durante o tempo em que mantiveram-na escondida; e Thorne, líder do Censo, um programa do governo que comanda a execução do tratado feito entre o reino de Tearling e seu vizinho, Mortmesne, em que o primeiro deve enviar escravos mensalmente ao segundo em troca da não invasão de seu território. Seus capítulos servem mais para contextualizar o conflito político que explorar os personagens em si, o que poderia ter sido feito pelos olhos da própria Kelsea, tornando-os muito mais interessantes e menos dormidos.

Ademais, Erika desliza um pouco na falta de direcionamento da história. Por ser um livro introdutório, A Rainha de Tearling foca-se, como já disse, em desenvolver o reino, mas deixa de explicitar quem é o principal antagonista do livro. É estabelecido sim o vilão da série, A Rainha Vermelha de Mortmesne, porém aqui as ações contrárias à coroa de Tearling são provenientes de outros pequenos pontos que não diretamente ela, e sua participação poderia ter sido muito mais ativa. Sem contar que é jogado pra escanteio o desenvolvimento dos personagens que não Kelsea. Principalmente Clava, o líder da Guarda da Rainha que torna-se uma espécie de tio postiço de Kelsea já que o verdadeiro não vale uma nota de três reais. Fica subentendido que ele possui um passado conturbado, que eu torci muito por algum vislumbre ainda nesse livro, porém foi também deixado para o seguinte.

De modo abrangente, foi um livro que adorei e que traz à tona muito que falar sobre. Uma leitura muito gostosa com uma protagonista que encanta desde a primeira aparição e é uma delicia terminar sabendo que o Tearling tem muita mais a contar e potencial para ser grandioso. Já posso sentir a agonia de ter que esperar para ler a continuação, The Invasion of The Tearling.

Postado por Julio Gabriel

2 comentários

  1. Oi Julio,
    Me interessei bastante por esse livro tratar mais o lado político do reino. Apesar de gostar de romance, sinto que muitas vezes ele é "jogado" no livro apenas para ter.
    Beijos

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  2. Oi Julio!
    Fiquei até zonza com tanta informação. Adoro uma boa distopia e se envolver política então, prato cheio ��
    Concordo com a Aichha, também acho desnecessário colocar romance numa história só pra constar.
    A dúvida é. Quantos livros serão?
    Abraços
    Monique - Alfarrábios Literários

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