[News] Dia das Crianças: leitura pode abrir espaço para escutar o que elas sentem
Crédito: Mediação de Leitura em Menino Deus, Portel (PA) - Kleber José Jr. - Vaga Lume
Curadoria da Vaga Lume sugere cinco livros que ajudam a abordar tristeza, saudade, medo, despedidas e pertencimento com crianças
O Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, também pode ser uma oportunidade para prestar atenção ao que as crianças sentem. Tristeza, solidão, medo, saudade ou insegurança fazem parte da infância, mas nem sempre elas encontram palavras para explicar o que estão vivendo. A literatura pode ajudar nesse processo ao apresentar personagens e situações nos quais a criança reconhece emoções que também fazem parte de sua experiência.
“Muitas vezes, subestimamos a capacidade das crianças de lidar com temas difíceis, mas elas sentem medo, tristeza, angústias e as ausências ao seu redor”, reflete Beto Silva, pedagogo, especialista em literatura para as infâncias e líder em Metodologia, Conteúdo e Formação da Vaga Lume. Segundo ele, a literatura que aborda questões sensíveis cumpre um papel fundamental na curadoria da organização. “Por meio da ficção, a criança se reconhece, percebe que não está sozinha em seus sentimentos e encontra palavras para nomear o que vive, percebendo personagens, situações, condições e contextos. As histórias conseguem dar contorno e voz a algo que ela sente, mas ainda não consegue explicar”.
Nas mais de cem bibliotecas comunitárias apoiadas pela Vaga Lume, em 23 municípios dos nove estados da Amazônia, a mediação de leitura também cria oportunidades para essa escuta. Durante uma roda, a maneira como a criança reage à história, as perguntas que faz e os comentários que compartilha podem revelar sentimentos que dificilmente surgiriam em uma conversa direta. Livros sobre tristeza, medo, saudade, perda ou deslocamento ajudam a introduzir esses assuntos de forma natural.
“Uma leitura compartilhada no Dia das Crianças pode ser também um momento de escuta. Quando o adulto acompanha as reações da criança, conversa sobre os personagens e dá espaço para que ela faça suas próprias associações, pode perceber sentimentos que ainda não haviam aparecido em palavras. As bibliotecas podem ser um espaço de acolhimento e convivência em que crianças se sintam à vontade para falar sobre o que sentem e os livros ajudam a criar esse momento de conversa, mas não substituem o cuidado especializado, ou seja, quando nem a própria pessoa cuidadora não sabe como lidar”, ressalta Silva.
A partir dessa perspectiva, a Vaga Lume selecionou cinco obras que podem ajudar famílias, responsáveis e educadores a transformar a leitura compartilhada em uma experiência de escuta e aproximação neste Dia das Crianças. São histórias que abordam sentimentos como tristeza, saudade, medo, perda e deslocamento e que podem servir como ponto de partida para conversas conduzidas sem pressa, respostas prontas ou cobranças.
Essa possibilidade aparece, por exemplo, em “Pássaro preto”, de Suzy Lee, publicado pela Companhia das Letrinhas. Na obra, uma menina que presencia conflitos entre os pais encontra na fantasia uma forma de lidar com a tristeza e a solidão. A narrativa, marcada principalmente pelas imagens, permite que a própria criança observe as cenas, interprete o que acontece e fale sobre como imagina que a personagem se sente. Para o adulto que acompanha a leitura, o livro pode abrir uma conversa sobre situações que geram desconforto, medo ou vontade de se afastar.
Saudade, mudança e perda atravessam “Você se lembra?”, de Sydney Smith, da Pequena Zahar. Mãe e filho, agora em uma casa nova, retomam lembranças de momentos vividos juntos. A história pode ajudar a conversar sobre as mudanças que fazem parte da infância, como trocar de casa, escola ou rotina, ou sentir falta de alguém, e sobre a possibilidade de preservar boas memórias enquanto se constrói uma nova relação com o presente.
Já "A redação", de Antonio Skármeta, com ilustrações de Walter Lara e publicado pela Global, aborda medo, silêncio e coragem. Vencedora do Prêmio Unesco de Literatura Infantil e Juvenil em Prol da Tolerância, a obra acompanha um menino de nove anos que percebe a tensão vivida pelos pais durante uma ditadura e precisa decidir o que dizer em uma redação escolar. A história chama atenção para algo que muitas vezes passa despercebido aos adultos: crianças também percebem silêncios, mudanças de comportamento e tensões ao seu redor. A leitura pode criar um espaço para que falem sobre situações que observam e que as deixam inseguras.
As despedidas e as perguntas que permanecem depois de uma ausência aparecem em “Astro”, de Manuel Marsol, publicado pela Orfeu Negro. A partida repentina de um amigo deixa questões difíceis de responder e sentimentos igualmente difíceis de explicar. O livro permite abordar a ausência sem a obrigação de oferecer respostas prontas, valorizando a escuta e o reconhecimento daquilo que a criança está sentindo.
Em “Barco de histórias”, de Kyo Maclear, da VR Editora, o ponto de partida é o deslocamento de famílias obrigadas a deixar seu país. A narrativa fala de refúgio, pertencimento e esperança, mostrando como pequenos afetos podem ajudar na construção de um novo lugar no mundo. A leitura também pode aproximar o tema de experiências mais presentes no cotidiano infantil, como uma mudança de cidade ou de escola, além de estimular conversas sobre acolhimento e empatia com quem está chegando a um ambiente desconhecido.
Sobre a Vaga Lume
Criada em 2001, a Vaga Lume está presente em 23 municípios da Amazônia Legal com 102 bibliotecas comunitárias em funcionamento. Desde de sua fundação, já doou 209 mil livros e formou mais de 6 mil mediadores de leitura, voluntários que leem para as crianças, trabalho esse que já impactou a vida de 113 mil crianças e jovens. O seu propósito é empoderar crianças e jovens de comunidades rurais da Amazônia por meio da leitura e da gestão de bibliotecas comunitárias, promovendo intercâmbios culturais com a leitura, a escrita e a oralidade para ajudar a formar pessoas mais engajadas na transformação de suas realidades.
Em 2024, a Associação Vaga Lume recebeu, pela terceira vez, o Selo de Direitos Humanos e Diversidade da Prefeitura de São Paulo. Em 2023, foi eleita pela terceira vez, sendo duas consecutivas, como a Melhor ONG de Educação do Brasil pelo Prêmio Melhores ONGs do Instituto Doar. No mesmo ano foi contemplada pelo novo prêmio United Earth Amazônia, na categoria ESG, da sigla em inglês Environmental, Social, and Corporate Governance (Ambiental, Social e Governança) e, também, foi uma das organizações selecionadas em todo o mundo para receber uma doação da filantropa MacKenzie Scott. Em 2022 foi vencedora do Prêmio Jabuti na categoria Fomento à Leitura. Conheça o mini documentário Vaga Lume no YouTube e acesse o site da associação.

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