[News]População em situação de rua cresce, mas mitos e preconceitos ainda dificultam soluções
RECOMEÇAR É POSSÍVEL
População em situação de rua cresce, mas mitos e preconceitos ainda dificultam soluções
Ana Paula Rios (coordenadora do RéP): A pessoa em situação de rua não deixa de fazer parte da sociedade e não perde seus direitos (foto: divulgação)
Ao longo dos últimos anos, observamos um signficativo aumento da população em situação de rua no Brasil, principalmente após a pandemia. Segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/UFMG), o país ultrapassou a marca de 330 mil pessoas vivendo nessa condição em 2025. O aumento, no entanto, não foi acompanhado por uma compreensão mais ampla sobre o tema. Muitas percepções distorcidas continuam sendo repetidas como verdades e acabam dificultando o debate público e a construção de respostas efetivas.
Jogar uma lupa sobre esses equívocos é um trabalho de conscientização que o projeto Recomeçar é Possível (RéP) busca alertar. Desenvolvido por meio de parceria entre Petrobras, People's Palace Projects do Brasil e Instituto LAR, o programa atua na região Centro-Lapa, no Rio de Janeiro, promovendo acesso a direitos, fortalecimento de vínculos, atividades culturais, oficinas e acompanhamento social para pessoas em situação de rua.
Para a coordenadora do projeto, Ana Paula Rios, parte dos desafios enfrentados por essa população está relacionada à forma como ela é percebida pela sociedade.
“Quando a gente escuta as pessoas, percebe que não existe uma única história da situação de rua. Cada trajetória tem necessidades, vínculos e possibilidades diferentes. Por isso, nenhuma resposta funciona de forma isolada”, afirma.
Entre os mitos mais recorrentes está a ideia de que as pessoas permanecem nas ruas porque querem. As trajetórias que levam uma pessoa à situação de rua são diversas e não podem ser explicadas como uma escolha individual. Elas podem envolver perda de renda, desemprego, violência, rompimento de vínculos familiares, questões de saúde física e mental, dificuldades de acesso à moradia e a outras políticas públicas. Estudos apontam que a situação de rua resulta da interação entre fatores sociais, econômicos e institucionais, de formas distintas em cada história.
Outro equívoco frequente é associar toda pessoa em situação de rua ao uso de álcool e outras drogas. Essa generalização ignora a diversidade existente entre as pessoas em situação de rua e reforça estigmas que dificultam o acesso a direitos. Mesmo quando há uso problemático de substâncias, essas pessoas continuam sendo sujeitos de direitos e devem ter acesso a políticas públicas de saúde, assistência social e proteção. A experiência cotidiana do RéP demonstra que as trajetórias vividas nas ruas são múltiplas e não podem ser reduzidas a um único perfil.
Também é incorreto afirmar que pessoas em situação de rua não querem trabalhar. Muitas já exercem atividades econômicas, principalmente no mercado informal, atuando na reciclagem, no comércio ambulante, na prestação de pequenos serviços e em outras formas de geração de renda. O acesso ao mercado formal de trabalho costuma ser dificultado por barreiras como a falta de documentação, de um endereço de referência, de acesso regular aos serviços de à saúde e de oportunidades de qualificação profissional.
Outro mito recorrente é o de que a oferta de alimentação, atendimento em saúde ou proteção social estimularia a permanência das pessoas nas ruas. Vale lembrar que alimentação, saúde e proteção são direitos básicos garantidos pela Constituição. Garantir esses direitos não prolonga a situação de rua; ao contrário, cria condições mínimas para enfrentar outras demandas urgentes e construir seus próprios caminhos.
A moradia figura como um dos elementos centrais do debate. O RéP destaca que o acesso à habitação é um direito fundamental e uma condição indispensável para a superação da situação de rua. Ao mesmo tempo, a efetivação desse direito precisa estar articulada a políticas de saúde, assistência social, documentação civil, geração de renda e fortalecimento de vínculos comunitários, de modo a oferecer respostas adequadas às diferentes necessidades de cada pessoa.
Entre os estigmas mais prejudiciais está a associação automática entre população em situação de rua e criminalidade. Mas essas pessoas são muito mais frequentemente vítimas do que autoras de violência. Entre os anos de 2014 e 2023, 150 mil episódios de violência contra a população em situação de rua foram registrados oficialmente no país segundo o estudo A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua, do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da UFMG, divulgado este ano. Ele também revela que 70% das vítimas não procuram atendimento após sofrer agressões, principalmente por enfrentarem barreiras institucionais para acessar proteção e garantia de direitos. Pretos e pardos representam 78% das notificações, enquanto pessoas entre 15 e 49 anos concentram 82% dos casos.
Relatos ouvidos pela equipe do RéP mostram ainda que muitas pessoas convivem diariamente com o medo de agressões, furtos e outras formas de violência, o que afeta diretamente sua segurança e suas condições de descanso.
Nesse contexto, as atividades desenvolvidas pelo projeto buscam ampliar o acesso a direitos e fortalecer a autonomia das pessoas atendidas. A arte ocupa papel importante nesse processo não como instrumento de recuperação, mas como espaço de expressão, elaboração emocional, convivência, construção de vínculos e conexão com a sociedade.
Somente nos primeiros meses de 2026, o Recomeçar é Possível realizou oficinas, atividades culturais, ensaios de coral e atendimentos sociais que somaram mais de 180 participações diretas, contribuindo para ampliar oportunidades de acesso a serviços, informações e redes de apoio.
Para Ana Paula Rios, enfrentar a questão da população em situação de rua exige superar simplificações e reconhecer a complexidade do fenômeno.
“A pessoa em situação de rua não deixa de fazer parte da sociedade e não perde seus direitos. O que muitas vezes falta é acesso à moradia, à saúde, à documentação, à renda, à cultura e a espaços de escuta.”
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Matéria-Prima Comunicação e Arte
Alexandre Aquino
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